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Espalhar boas ideias é o intuito do evento da comunidade TED, que ganha versões independentes por todo o mundo e na última quinta-feira teve espaço na Escola Estadual Carlos Maximiliano, para o TEDx Vila Madá. O tema foi “cidades criativas: mobilidade para todos”. O bairro, Vila Madalena, é conhecido como um dos mais criativos de São Paulo.

A primeira das palestras – todas têm duração cronometrada de dezoito minutos – começou surpreendendo o público ao não aplicar o conceito de mobilidade para problemáticos carros ou salvadoras bicicletas. Félix Ximenes, diretor de comunicação do Google no Brasil, nasceu e vive até hoje na Vila Madalena, tendo também estudado na escola palco do TEDx. Sua ideia de mobilidade não transporta pessoas, mas informações: o celular. Para ele os smartphones nos desprenderam de ficar sentado frente às máquinas para adquirir ou fornecer informações. “Estamos voltando às ruas, com a informação no bolso”, sintetiza. E pede que a Vila Madalena se aproprie do georreferenciamento do Google para explorar o potencial criativo do bairro, onde o grande número de ateliês de arte acaba ficando “escondido”, justamente pela falta de informação sobre o acesso.

 

A proposta para usar o aplicativo dos mapas do Google não foi um apelo isolado. O curador do TEDx Vila Madá, Maurício Curi, conta que o evento está passando da fase de inspirar reflexão para a de promover a mudança. Para isso foi criado o site UxChange , que significa “você executa a mudança”. Neste primeiro momento, a proposta é que cada palestrante deixe uma ação sugerida ao público.

 

O administrador Sérgio Faria, por exemplo, é deficiente visual e em sua palestra sobre a acessibilidade dos transportes públicos deixou como sugestão que cada pessoa aponte no mapa do UxChange como é a acessibilidade dos lugares onde passa no dia-a-dia. A atenção para esse item, segundo ele, pode ser de todos, já que “ninguém é deficiente, mas apenas o está. Do mesmo modo que eu posso começar a enxergar, um acidente pode tirar a visão de qualquer um”, argumenta ele, enquanto descreve a eficiência dos metrôs, a dificuldade para se informar sobre o ponto de descida nos ônibus e o perigoso vão entre o trem e a plataforma nos veículos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos: “é um vão onde pode cair o cão-guia, o deficiente e quem mais estiver ajudando.” Faria frisa que o maior problema para os deficientes ainda é o da atitude. “O povo brasileiro é extremamente solidário, mas não sabe como ajudar. Não se pode puxar um deficiente visual pelo braço, fazendo-o perder toda sua referência. Apenas pergunte se ele precisa de ajuda”, orienta..

Outra proposta que deixou o público tentado a mudanças foi a de trabalhar em casa. Um vídeo da empresa Educartis, que mantém mais de 30 funcionários trabalhando à distância, mostrou que as quase quatro horas que esses profissionais gastavam no trânsito podem ser trocadas por itens que perderam espaço na agenda do paulistano. São eles exercícios físicos e momentos com a família – em algum momento das entrevistas do vídeo, cada profissional acabou revelando essa troca ao descrever sua nova rotina. De março de 2009 até o dia do TEDx, a Educartis contabilizou a economia de 7,5 milhões de km2 devido às reuniões realizadas pela internet; com isso deixaram de gastar 2 milhões de dólares e de emitir 1000 toneladas de carbono. “Precisaríamos dobrar nossos preços se tivéssemos que pagar essa conta”, conta um dos profissionais.

Ainda mais soluções vieram da palestra de José Luiz Portella, engenheiro civil especializado em gerenciamento de projetos, transportes e tráfego. Em tom de poesia, Portella trouxe um panorama das soluções técnicas para o trânsito paulistano, o que inclui integração entre os modais do transporte público; infra-estrutura para uso da bicicleta, especialmente nas avenidas de fundo de vale, que ligam regiões; e ainda restrição aos carros em trechos onde o transporte público é suficiente, como no Centro. “É claro que também é preciso ter estacionamento para acomodar os carros que chegam até lá”, ressalva.

“Parada é um conceito antigo”, afirmou o engenheiro, defendendo que o metrô integre o cidadão ao seu destino, oferecendo diversidade de meios para que ele complete sua rota. Lembrando que parte da solução já está acontecendo e é preciso cobrança da população para catalisar esse processo, Portella citou o Plano de Expansão dos Transportes sobre Trilhos, do qual foi colaborador. “Na conhecida Semana de 22, um grupo de jovens propôs mudar a cidade que não cultivava os valores locais. Hoje precisamos de uma nova Pauliceia Desvairada”, propôs, com base no fato de que hoje São Paulo é a cidade que oferece tudo, mas da qual não aproveitamos quase nada. “O Brasil inteiro admira a avenida Paulista, enquanto os paulistanos passam por ela com pressa ou medo”, justifica.

Por fim, a cicloativista Renata Falzoni listou uma série de vantagens sobre o uso da bicicleta como parte da solução para o péssimo trânsito paulistano. Contando que já foi discriminada na porta de bares e restaurantes por ser ciclista, já que não dirigia um carro e portanto não teria o status de consumidora; a arquiteta e bike repórter da rádio Eldorado apontou a bike como ferramenta de inclusão social. Na sequência, disparou o potencial do veículo como aliado da saúde pública, combatendo a obesidade e especialmente a obesidade infantil, diminuindo o stress dos paulistanos e servindo de solução para o curto, médio e longo prazo. “Os que advogam contra trabalham pela indústria que diariamente mata cem brasileiros no trânsito”, ela conclui, fechando qualquer espaço para uma defesa aos carros.

Organizador do evento, Maurício Curi explica que a intenção “não era eleger uma vertente, mas dar subsídio para todos pensarem o assunto, mostrando a possibilidade de não haver mais nenhum carro ou de termos até mais carros” – um dos vídeos exibidos durante o TEDx mostrou um carro sem motorista que, mais confiável e seguro, permitiria uma distância menor entre os veículos que circulam pela cidade. “Sim, houve um tom de provocação na proposta”, confessa Curi, ressalvando que o argumento apresentando no vídeo estimula a reflexão. Ele também cita um carro movido a ar comprimido: barato, pequeno e com um combustível sem custos para o bolso ou o planeta, a inovação também indicaria que a solução pode passar pelo uso dos carros.

Renata Falzoni, que admite usar o carro para viajar ou passear com seus quatro cachorros, alega que esse veículo nos distancia da cidade e das outras pessoas, enquanto a bike nos faz usar os sentidos do tato, olfato e, mais apuradamente que no carro, da visão. Para ela a bicicleta ainda é uma forma “mais humana” que o individualismo do carro. “Hoje 80% do espaço público é para carro correr ou estacionar”, aponta ela para mostrar que as pessoas estão perdendo seu espaço na cidade.

No público, o gerente de compras Leonardo Fonseca, 28, assistiu às palestras buscando ideias para se mover. “Sinto necessidade de mudar. Quero repensar meus hábitos e mobilizar mais pessoas do meu trabalho nesse sentido”, conta. No fim do evento, ele listou algumas ideias que o inspirou, como o trabalho em casa. “Achava difícil manter a disciplina assim, mas o vídeo mostrou que ela é até maior, já que se aumenta a necessidade de mostrar resultados”, compartilha.

“Também estou pensando em usar mais a bike, a exemplo de alguns colegas de trabalho que já o fazem, mas nas vias por que passo de carro hoje, ainda é proibitivo usar um veículo tão vulnerável”, lamenta Fonseca. Para ele, as ideias mais concretas vieram de José Luiz Portella. Mas o engenheiro de soluções pragmáticas também ousou prever que “o futuro está na bicicleta, ou melhor, no investimento de infra-estrutura para ela”. Entre tantas propostas técnicas e idealizadas para o transporte da cidade, Portella deixou um empurrãozinho: “o impossível geralmente é o que não temos coragem de experimentar.”

Agência Envolverde

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