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O médico informou, logo que Simone nasceu, glaucoma congênito, doença rara, causa de 3 a 8% da cegueira infantil. A cirurgia foi feita em dias, sem o resultado esperado. Outras cirurgias, mais tarde, sem sucesso. A doença impede o olho de drenar com eficiência o seu líquido, aumentando o globo ocular, impedindo sua função normal. A infância correu seu curso esperado. No início da vida escolar começaram os problemas – as professoras se angustiavam, não sabendo como trabalhar com Simone e os demais alunos ao mesmo tempo. Começou a freqüentar o Centro de Prevenção à Cegueira da cidade (CPC) e surgiu a tele lupa (um tipo de óculos), e na escola agora, sílaba à sílaba, as palavras se construíam. Em casa, a mãe ajudava. Até a sexta série ainda conseguia “ver” as linhas do caderno e escrever. Com doze anos, seu irmão brincava com outra criança, e num lance infeliz a bola atingiu o olho que ainda enxergava (o outro tinha sido perdido em insucesso cirúrgico). Descolamento de retina risco de cegueira total, é um olho mais frágil, mais cansado... A medicina não teria mais como ajudar – em seu caso só muito repouso e oração. A família toda orava, e voltou a luz ao olho, mas com menos nitidez... Continuou estudando, e a cada ano aparecia voluntariamente uma colega anjo-da-guarda, que lia o necessário para Simone. Terminou o colegial, sempre com o trabalho em paralelo do CPC, construindo as habilidades necessárias para uma vida normal apesar da baixa visão. Muita luta, muitos currículos enviados durante anos e entrevistas feitas, surge o primeiro emprego aos 24 anos. Conseguia ser recepcionista, telefonista, fazendo a inscrição de alunos, elaborando fichas e matrículas para os cursos dados. Conseguia avisar os alunos agendados do início de seu curso. Tudo isto era possível graças a um software especializado de voz, próprio para deficientes visuais, que torna possível o trabalho em informática. Trabalhou dois anos. Veio o desemprego, por questões de política interna da firma. Hoje trabalha em academia de ginástica, no período da manhã. Atende as pessoas, faz o troco (a dona deixa todo o dinheiro arrumado). Usa o notebook da família. Freqüenta o CPC – sempre há o que aprender e melhorar. Quer emprego de período integral e sabe que será boa recepcionista e/ou telefonista. Tem voz suave, figura bonita. Simone se considera pessoa muito feliz. Repito – se considera pessoa muito feliz, quantos de nós, que achamos que enxergamos, achamos também que somos muito felizes? Essa moça namora há quatro anos, casa no ano que vem. Ele enxerga, ajuda na escolha do arroz, feijão, na maquiagem e no cuidar das mãos de Simone. Ele enxerga com amor. De todo o resto ela é capaz de dar conta. Como sempre foi muito boa em redação, fez livro de poesias e mensagens. Já são vinte e oito. O sonho é publicar... Acha que falta muita informação sobre deficiência. Para todos. Talvez, com mais informações as pessoas percebam o quanto mais podem ajudar, quantas portas cada um de nós pode abrir. Basta começar a enxergar, com o coração...

 

Este é um caso real, Simone existe.

Elizabeth Fritzsons da Silva, Psicóloga, Diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência, Promoção Social. Prefeitura Municipal de Americana e responsável pelo Blog: Misture Tudo: http://diferenteeficientedeficiente.blogspot.com/

 

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